Cena simboliza o momento em que o deputado tenta interferir em uma ação da Polícia Militar durante operação em bloco de Carnaval, gerando críticas sobre uso indevido do mandato e respeito à lei.

Deputado Fábio Felix confunde mandato com privilégio e confronta a PMDF

Publicado em: 19/02/2026 00:074,9 Min. de Leitura

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Ilustração em estilo charge mostra deputado discutindo com policiais durante ação da PMDF em bloco de Carnaval no Setor Comercial Sul, em Brasília. Tentativa de interferência em prisão por tráfico expõe abuso de poder e reação na Câmara do DF

A atuação do deputado distrital Fábio Félix durante uma abordagem da Polícia Militar no Carnaval, no Setor Comercial Sul, em Brasília, provocou forte reação dentro e fora da Câmara Legislativa do Distrito Federal. O episódio, ocorrido na segunda-feira (16), expôs uma tensão delicada entre prerrogativas parlamentares, dever institucional e o respeito à autoridade policial.

A ocorrência teve início quando um cão farejador do Batalhão de Polícia de Choque com Cães indicou a presença de drogas em uma tenda montada durante o bloco Rebu. Dois homens foram abordados e presos sob suspeita de tráfico. Durante a ação, uma organizadora do evento passou a filmar os policiais, insultá-los e incentivar foliões contra a prisão, criando um ambiente de hostilidade e risco.

Segundo relatos, a mulher tentou impedir a condução dos suspeitos e estimulou a aglomeração, o que, em tese, pode configurar resistência, desobediência e obstrução de serviço público. Diante da escalada da confusão e da ameaça à integridade dos agentes, um policial utilizou spray de pimenta, instrumento não letal previsto em protocolos de controle de multidões.

Nesse contexto, o deputado Fábio Félix decidiu intervir diretamente na operação. Questionou a legalidade da prisão, tentou impor sua condição de parlamentar e chegou a dar voz de prisão a um policial que atuava em serviço. A atitude foi interpretada por colegas e por setores da sociedade como tentativa de “carteirada” e interferência indevida em uma ação legítima da Polícia Militar do Distrito Federal.

O desfecho foi imediato: o parlamentar também foi atingido pelo spray e, posteriormente, classificou o episódio como suposta perseguição política. A versão, no entanto, não convenceu parte expressiva da opinião pública nem integrantes da própria Câmara.

Para parlamentares críticos ao episódio, não se trata de minimizar o desconforto causado pelo spray, mas de analisar a conduta institucional. Quando um agente público tenta interromper uma prisão por tráfico e mobiliza uma multidão contra policiais em serviço, deixa de exercer o mandato para atuar em zona de risco jurídico e político.

Reação interna e crítica à nota oficial

A crise se aprofundou com a divulgação de uma nota assinada pelo vice-presidente da Casa, Ricardo Vale, apresentada como posição institucional da CLDF. O documento sugeria reprovação à atuação da polícia, como se houvesse consenso entre os parlamentares.

A iniciativa gerou forte reação. O primeiro a se manifestar foi Roosevelt Vilela, que foi direto: “Ricardo Vale não pode falar por mim. A posição dele não é a minha posição”. Outros deputados também demonstraram desconforto com o uso do nome da Casa para sustentar uma narrativa política sobre um caso de natureza operacional.

Nos bastidores, a avaliação é de que a nota extrapolou atribuições institucionais, feriu a autonomia dos parlamentares e criou a falsa impressão de que a CLDF estaria oficialmente contra a atuação da PMDF.

Privilégio, responsabilidade e imagem pública

O episódio escancara uma discussão recorrente na política brasileira: até onde vão as prerrogativas parlamentares e onde começa o abuso de autoridade. O mandato não confere poder para interferir em flagrantes, intimidar agentes públicos ou constranger operações policiais.

Especialistas em direito público ouvidos por parlamentares avaliam que a conduta pode, em tese, ser enquadrada como tentativa de obstrução de ato legal, além de gerar repercussões administrativas e políticas.

Além do aspecto jurídico, há o impacto simbólico. Em um contexto de insegurança urbana e combate ao tráfico, episódios de confronto entre políticos e policiais reforçam a percepção de distanciamento entre parte da classe política e as demandas reais da população.

Quando a política invade a lei

A intervenção de Fábio Félix transformou uma ocorrência policial rotineira em um embate ideológico. O caso deixou de ser sobre tráfico de drogas e segurança pública para se tornar disputa narrativa, com tentativas de vitimização e politização do episódio.

Já a nota assinada por Ricardo Vale ampliou a crise ao institucionalizar uma posição sem consenso, aprofundando divisões internas e desgastando a imagem da Câmara.

Para analistas, o episódio é relevante, sim, e merece ser amplamente debatido e publicado. Ele revela como o uso indevido da autoridade política pode comprometer a credibilidade das instituições e enfraquecer o pacto básico entre Estado, lei e sociedade.

Opinião

Separar crítica legítima de interferência indevida é essencial para a democracia. Parlamentares têm o direito de fiscalizar, questionar e cobrar transparência das forças de segurança. O que não podem é tentar substituir o Estado de Direito por influência pessoal ou militância momentânea.

No caso do bloco Rebu, os fatos indicam que a polícia agiu dentro da legalidade, enquanto a intervenção política gerou tumulto, desgaste institucional e confusão pública. Quando privilégios falam mais alto que responsabilidades, quem perde é a confiança da população.

Mais do que um episódio isolado, o caso serve de alerta: mandato não é salvo-conduto. É compromisso permanente com a lei, com a ordem democrática e com o interesse coletivo.

Fonte: DF Soberano