Flávio Bolsonaro e Donald Trump

Encontro com Donald Trump é trunfo para Flávio Bolsonaro e acende alerta sobre papel da Casa Branca na eleição

Publicado em: 27/05/2026 00:568,5 Min. de Leitura

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Da BBC News Brasil em São Paulo

O encontro do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL/RJ) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca é interpretado por especialistas em relações internacionais como um gesto político relevante em meio à disputa eleitoral brasileira de 2026 mas com efeito limitado sobre o eleitorado, principalmente de centro

Embora analistas ouvidos pela BBC News Brasil considerem improvável que a agenda seja suficiente para reverter a crise enfrentada pela pré-campanha do senador nas últimas semanas, eles avaliam que a foto de Flávio ao lado de Donald Trump no Salão Oval tem forte peso ideológico e o fortalece dentro do campo conservador.

Pesquisas de intenção de voto para a eleição presidencial apontaram queda de Flávio nas simulações de primeiro e segundo turno após o site The Intercept Brasil revelar mensagens em que o senador pedia recursos ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Flávio nega irregularidades.

Os especialistas também afirmam que o encontro na Casa Branca acende um alerta diplomático mais amplo: O de uma possível sinalização política de Donald Trump em favor de um pré-candidato alinhado a ele movimento que pode ser interpretado como uma possível influência americana sobre a eleição brasileira.

Donald Trump e Flávio Bolsonaro se reuniram nesta terça-feira (26/5), três semanas após a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Casa Branca. Diferentemente de Lula, porém, a reunião não apareceu na agenda oficial do governo americano e não houve detalhes públicos sobre seu formato.

Presidentes Jair Bolsonaro e Donald Trump

Segundo o senador, seu encontro com Donald Trump durou 1h40 e ele foi recebido com enorme cordialidade pelo presidente americano.

A duração exata do encontro, no entanto, não pôde ser averiguada e há dúvidas se houve, de fato, uma reunião formal ou apenas entrega de documentos e registro fotográfico. Até a noite de terça, nem Donald Trump nem a Casa Branca se manifestaram publicamente sobre a visita de Flávio Bolsonaro.

Independentemente disso, para Vinicius Rodrigues Vieira, professor de relações internacionais da FGV e da FAAP, o simples fato de Donald Trump receber um pré-candidato já tem forte significado político. Ele afirma não se lembrar de outro caso recente em que um presidente americano tenha recebido um candidato brasileiro à Presidência.

“Se Trump aceitou encontrar alguém que é candidato à Presidência e do campo político da direita, é uma sinalização, no mínimo, de que ele prefere esse candidato. Como o eleitor vai entender isso é outra história”, afirma.

Integrantes do staff de Flávio Bolsonaro afirmam que o encontro foi articulado pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL/SP), que está radicado nos Estados Unidos desde o ano passado e que mantém laços com integrantes da direita conservadora que dão apoio a Donald Trump.

Flávio Bolsonaro se encontrou com Trump na Casa Branca na terça-feira (27/5).

Na avaliação de Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Unifesp, o encontro tem muito peso ideológico, principalmente em ano eleitoral. Mas ela não acredita que isso seja suficiente para afastar o desgaste provocado pelas denúncias envolvendo Daniel Vorcaro.

“Essa visita é uma tentativa de Flávio Bolsonaro mostrar o quanto está alinhado aos EUA. A classe conservadora brasileira gosta bastante dessa ideia. Ele foi para angariar apoio”, afirma.

Vieira concorda que o principal impacto político do encontro ocorre dentro do próprio campo bolsonarista, que tem encontrado dificuldades para lidar com a crise na campanha de Flávio. O professor é cético, contudo, sobre os efeitos do encontro junto ao eleitorado de centro, considerado decisivo para a eleição presidencial.

“A foto é bem-sucedida para quem já é suscetível a votar nele. Não vejo a foto em si servindo para conquistar território e capturar o eleitor centrista neste momento”, afirma.

Segundo Vieira, a imagem de Flávio Bolsonaro ao lado de Donald Trump também envia um recado a nomes da direita que buscam consolidar suas pré-candidaturas à Presidência, como os ex-governadores Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (União Brasil), que ganharam visibilidade nas últimas semanas.

“Com esse encontro, Flávio basicamente diz: ‘Eu, como pré-candidato, consigo ir aos EUA e ser recebido pelo presidente’, algo que Zema e Caiado não conseguem. Então, para eles, essa foto é bem ruim”, afirma.

‘Red flag’ para as eleições

Para os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o encontro também levanta dúvidas sobre até que ponto os Estados Unidos podem tentar influenciar a disputa presidencial brasileira de 2026.

Na avaliação de Regiane Bressan, professora de relações internacionais da Unifesp, o gesto de Trump ao receber Flávio Bolsonaro em plena pré-campanha envia uma sinalização política importante ao governo Lula.

“Se Trump está recebendo Flávio, é porque está dando voz a esse candidato. Existe uma intenção política nesse gesto”, afirma.

Para a professora da Unifesp, a intenção é clara: “Ao meu ver, Flávio está dizendo: ‘Se eu me eleger, eu posso viabilizar isso que vocês querem, de designar as facções brasileiras como organizações terroristas'”, destaca.

Em coletiva de imprensa após a reunião, Flávio Bolsonaro disse que pediu expressamente ao presidente americano que classifique o PCC e o Comando Vermelho como entidades terroristas. Essa teria sido, inclusive, uma das principais pautas do encontro.

O tema é sensível para Lula. O Palácio do Planalto entende que a designação abriria espaço para interferências dos Estados Unidos em território brasileiro, como ocorreu no ano passado com embarcações venezuelanas, bombardeadas sob acusação de estarem transportando drogas, algo que não foi comprovado. Depois desses ataques, o governo americano invadiu a Venezuela e prendeu o presidente Nicolás Maduro em janeiro.

 

Segundo Bressan, a postura de Flávio Bolsonaro abre espaço para uma atuação mais assertiva dos Estados Unidos sobre o tema e pode levar Donald Trump a apoiar o senador e “até mesmo influenciar nas eleições no Brasil”.

“Trump pode evitar uma ação direta em relação a essas forças criminosas agora, mas não tenho dúvida de que isso alimenta uma vontade do próprio governo dos EUA em endossar as manobras que favoreçam o fortalecimento da direita nesse ano eleitoral”, destaca.

Vieira também vê o episódio como um sinal de alerta. Para ele, ao receber Flávio Bolsonaro, Donald Trump mostra uma clara preferência pelo pré-candidato nas eleições.

“Acredito que é uma “red flag” enorme para o processo eleitoral brasileiro, uma sinalização de que ele pode sim interferir na eleição”, destaca.

Questionado pela BBC News Brasil após o encontro, Flávio Bolsonaro disse que não chegou a pedir apoio de Trump à sua campanha.

“Não tem declaração de nada de apoio. Como não deveria ter, como não poderia ter e como eu jamais pediria que isso acontecesse”, disse.

Como fica Lula?

Especialistas não veem impacto eleitoral do encontro para Lula, mas ressaltam dúvidas sobre como fica a política externa do Brasil.

A reunião entre Trump e Flávio Bolsonaro na Casa Branca não representa uma derrota para Lula, na avaliação de Vieira, mas cria um novo desafio para a política externa brasileira. Segundo o professor, o episódio gera desconfiança na relação entre Brasília e Washington justamente no momento em que o governo Lula tenta construir uma relação pragmática com o presidente americano.

“Acho que a maior preocupação de Lula, pelo menos por agora, é enquanto presidente. Até porque ele foi recebido como chefe de Estado e tem mostrado uma boa relação com Trump”, pontua.

“Mas, ao receber Flávio, Trump sinaliza uma clara preferência, e isso levanta uma dúvida: quão confiável é o governo Trump? É um problema de Estado, de política externa”, acrescenta.

O professor acredita que a agenda bilateral entre os dois países ficará praticamente suspensa até as eleições, o que deve deixar o entorno de Lula em alerta, principalmente em relação à possibilidade de os EUA classificarem as facções criminosas brasileiras como entidades terroristas.

A discussão sobre o tema vem sendo tratada pelos dois países há pelo menos um ano. Em maio de 2025, o governo brasileiro rejeitou um pedido formal do Departamento de Estado americano para que o Brasil adotasse a designação.

Desde então, o Itamaraty trabalha ativamente para estabelecer cooperações com os EUA no combate ao crime organizado, na tentativa de evitar a classificação de facções como grupos terroristas.

Em dezembro do ano passado, Lula chegou a conversar com Donald Trump sobre o tema durante ligação telefônica. Havia também uma expectativa de que o assunto que é uma das maiores vulnerabilidades do governo Lula fosse abordado durante o encontro entre eles na Casa Branca no início de maio, mas isso não aconteceu.

“Não me surpreenderia se a Casa Branca, em plena campanha presidencial no Brasil, decidisse declarar o PCC como uma organização terrorista. Isso seria uma puxada de tapete para Lula, um golpe muito forte”, afirma.

Para ele, a foto de Flávio Bolsonaro ao lado de Donald Trump ganharia outro peso caso viesse acompanhada de uma ação concreta por parte dos EUA.

“A foto hoje não faz efeito sozinha. Mas a foto combinada com uma ação durante a eleição muda de figura. Isso entrega uma narrativa de bandeja para Flávio Bolsonaro, assim como aconteceu com as tarifas”, diz.

Fonte: BBC News Brasil em São Paulo.