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20/05/2024
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Praia de Goa: empresários falam sobre influência de filho de ex-ministro

Por Lilian Tahan & Gabriella Furquim

Desde a primeira edição, o Na Praia, evento organizado pela R2 Produções, impressionou os brasilienses pela estrutura e pelo gabarito das atrações musicais. Em 2015, foi criada, pela primeira vez, a praia artificial e temporária às margens do Lago Paranoá, com 6 mil m² preenchidos por 400 toneladas de areia. De lá para cá, o evento só cresceu. Na edição de 2018, foram trazidos dois contêineres de objetos decorativos diretamente da Ásia. Os shows foram transmitidos ao vivo por um canal fechado de televisão e os ingressos chegaram a custar R$ 600.

Com a deflagração da Operação Praia de Goa, que apura a concessão de benefício de R$ 3,7 milhões do Governo do Distrito Federal (GDF) à R2, surgiram detalhes sobre como o grupo se estruturou e cresceu tão rapidamente na capital do país. Em um dos áudios interceptados pela polícia com autorização judicial, dois empresários do ramo conversam sobre o início do empreendimento.

No diálogo, eles apontam a importância do capital político de um dos sócios da produtora: Eduardo José de Azambuja Alves, que é filho do ex-ministro de Turismo Henrique Eduardo Alves. O ex-ministro, que presidiu a Câmara dos Deputados, chegou a ser preso em 2018 em uma operação desdobramento da Lava Jato, por suposto desvio de dinheiro na construção da Arena das Dunas, em Natal.

A conversa foi entre Agnaldo Silva e Guilherme de Morais Donâncio Rodrigues. Agnaldo é um dos mais requisitados coordenadores de produção da capital, conhecido pela facilidade com que resolve trâmites burocráticos, como a liberação de alvarás. Ele também é sócio da Bloco A Produção e Locação de Estrutura para Eventos. Guilherme administra a empresa Palco Locações.

Mais sobre o assunto:

Após conversarem sobre cargos e salários da R2, Guilherme pergunta para Agnaldo se os organizadores do Na Praia tinham dinheiro desde a primeira edição. Agnaldo responde que não, mas que tinham “moral”. Os dois seguem conversando sobre como a influência do ex-ministro abriu as portas para a produtora.

Agnaldo diz que Eduardo “não recebeu dinheiro de político, de coisa errada”, mas continua a conversa exemplificando as vantagens de ser filho de um membro do alto escalão do governo federal. “Mas, tipo assim, vamos lá… Eu quero agradar seu pai, você me liga, seu pai me liga e diz: ‘Ó, Agnaldo, meu filho tem uma empresa de…”.

Guilherme completa: “Meu menino tem um evento em Brasília, dá uma olhadinha. Se der, beleza. Se não der, beleza… O cara leva o projeto, não quer nem saber o que é e está ok”.

Agnaldo continua: “O cara pega, você que é o filho do Agnaldo? Ô, fulano, vê com eles aqui para a gente dar um apoio de patrocínio, dá uma olhadinha. Tipo assim, o cara nem quis ouvir”. Depois, pondera: “Em contrapartida, eles entregaram um produto muito bom no final”.

Confira a íntegra da transcrição da conversa:

A conversa faz parte de uma série de transcrições de diálogos que embasaram a decisão do juiz André Ferreira de Brito, da 2ª Vara Criminal de Brasília. O magistrado autorizou a busca e apreensão na casa do ex-secretário de Meio Ambiente do GDF Igor Tokarski, na última terça-feira (16/10). A Justiça viu indícios da mistura de interesses privados com os públicos envolvendo os sócios da R2 Produções, responsável pelo Na Praia.

A relação entre Tokarski e os produtores é detalhada na decisão do juiz André Ferreira de Brito. O magistrado ressalta o “vínculo pessoal e financeiro” entre os investigados.

O outro lado

Procurado pela coluna, Agnaldo disse que deixou claro na conversa que Eduardo “não fez nada errado”. “Foi um comentário, não quer dizer nada”, afirmou por telefone. Guilherme não foi localizado pela reportagem. Tokarski nega ter favorecido os sócios do Na Praia.

A R2 Produções se manifestou por meio de nota, na qual “reitera a legalidade e a transparência de todas as suas atividades”. Sobre as investigações, afirmou que “os sócios estão à disposição das instituições, ressaltando que até hoje a empresa não teve acesso aos autos, caracterizando o cerceamento da defesa, uma garantia sagrada assegurada pela Constituição”.

Praia de Goa

Em 18 de setembro, dia em que foi deflagrada a Operação Praia de Goa, os policiais apreenderam documentos na Administração do Plano Piloto, em casas de servidores e em outros órgãos públicos.

O grupo é investigado por organização criminosa, estelionato e lavagem de dinheiro. De acordo com a PCDF, o inquérito teve início em 2017, durante a gestão Rollemberg, com a suspeita de desvio de recursos que deveriam ser usados em projetos sociais por meio da Lei de Incentivo à Cultura.

Com base em diligências da polícia, grande parte dos gastos custeados com os recursos da lei foi empregada na aquisição de estruturas para os eventos. No entanto, os investigadores concluíram que havia sobrepreço nos equipamentos. Por exemplo, teria sido comprovado que um gerador foi adquirido por um valor superfaturado em 59%.

Além disso, a R2 Produções, conforme dados da Polícia Civil, alegava gastar dinheiro para comprar tendas, suportes e outras estruturas para os projetos ditos sociais, mas, na verdade, tudo isso já existia no evento principal.

Ministério Público de Contas

As denúncias que deram origem à Operação Praia de Goa também estão sendo apuradas pelo Ministério Público de Contas do Distrito Federal (MPC/DF). Chamou atenção do órgão de controle a participação da ex-funcionária da Secretaria de Cultura Moema Gomes de Faria no quadro de empresa ligada à R2.

Segundo a representação do MPC-DF, assinada pelo procurador substituto Marcos Felipe Pinheiro Lima, um dos sócios da R2 aparece como gestor financeiro do Na Praia Cultural, cuja proponente é a sociedade empresária Banda Fura Olho Ltda, atual Ipê Entretenimento.

O Ministério Público de Contas identificou que a alteração do nome empresarial se deu após a aquisição das cotas da empresa, em 25 de maio de 2017, por parte de Moema Gomes de Faria, que era coordenadora de Fomento e Incentivo Cultural da Secretaria de Cultura, cargo do qual foi exonerada em 3 de março de 2016.

Fonte: Metrópoles

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